O desespero bateu-lhe a porta, quando menos esperava.
Não estava pronto, há tanto não o via! Precisava organizar os pensamentos, precisava proteger-se, separar o real do imaginário. Mas não havia tempo. Sentou-se, derrotado, entregando-se ao inevitável. Observou as paredes do seu quarto encolhendo, lentamente, sufocando-o. Imaginava coisas, tantas coisas. A cada minuto que se passava suas próprias ideias tornavam o mesmo problema em um problema ainda pior, criando conexões tão obscuras e sensíveis que somente o seu estado patético de pensamento poderia manter.
Via em sua mente a sua obra, tudo o que havia construído, assim como um engenheiro vê sua construção. O que estava errado? Onde, por Deus, falhara? Analisava minunciosamente detalhes e memórias, mexia e remexia, sem perceber o que, de fato, fazia. Dito que andava em companhia do desespero, percebeu, atônito, que, enquanto analisava suas memórias, o maldito desespero pintava de negro uma a uma. E em todas as coisas bonitas, achava algo de incorreto, um quê de malícia. Arregalou os olhos, pôs-se a chorar. “Ora, pois, homens seguros de si não choram”, falou-lhe o desespero. “E é disso que ela precisa: de um homem. Percebes, então, que ela não precisa de ti?”.
Levantou-se e andou. Conheceu cantos de sua casa que nunca antes havia visto, de tanto que andou. Precisava dela. Estranho pensamento, há tanto não precisava de ninguém. Foi outra coisa que tomou-o de repente, e havia igualmente deixado acontecer, feliz e satisfeito com as possibilidades. Mas e o que é o amor, se não proteger-se contra o mundo e expor os pontos fracos para uma só pessoa? Ora, se o sofrimento é fato indiscutível, que seria mais seguro que entregar a possibilidade de senti-lo nas mãos de uma só pessoa, ao invés de deixar ao relento, para qualquer um que queira dele aproveitar-se? A lógica era infalível, mas a realidade tem seu jeito de mostrar que é ela quem manda na lógica, e não o contrário. “Talvez explique-se”, pensou, “pela lógica da corrupção do poder? O poder tem esse… bom, poder de corromper as pessoas. Será?”. Não sabia. E não sabia se poderia confiar nas coisas que pensara nos últimos minutos. O desespero não parava de falar-lhe nos ouvidos, não sabia mais quais pensamentos eram seus e quais não eram.
Cansou-se de pensar. Queria o conforto, queria a solução, alguma saída. Precisava dela. Mas ela não estava lá. Ele estava sozinho. Teria que enfrentar isso sozinho. Mas não enfrentou. Recostou-se na cama e deixou o desespero poluir seus pensamentos, um a um, e repetia para si mesmo que aquilo não era real, não era real. Repetiu tantas vezes que nem ele mesmo acreditava mais ser real…



