Catarse

(Hoje eu abri o blog pra um “Guest Post” de um amigão, o João Paulo. O cara é gente boa, inteligente e maluco, ou seja… quem melhor pra postar por aqui?! Eu tô preparando um post meu também, deve tá chegando por aqui essa semana ainda! Por enquanto, vamo ver o que o João preparou pra gente! =D)

A ficha demorou a cair – sendo bastante sincero, talvez não tenha caído até agora – o que não torna mais fácil ter de lidar com a catarse catastrófica de descobrir o seu próprio lugar no mundo.

Tropeçando sozinho na vida desde os 18, foi somente semana passada quando, em um café (Belo Horizonte é ótima! Tem cafés por todos os lados), conversando com um amigo percebi que eu já tinha virado gente grande. Ele falou alguma coisa sobre dar o último plantão, receber visitas em casa, apartamento bagunçado, contas a pagar… O que pessoas normais geralmente conversam. Papo. Coisa de gente adulta mesmo: falar do dia, do trabalho, da casa.

Eu não sei se foi a sinusite, o sono ou o susto, mas a fumaça do cigarro subiu pesada pra cabeça e foi só quando tudo parou de girar que pude sentir o engasgo acre da verdade: porra, faz tempo demais que eu estou nessa vida, ainda que eu nunca tenha realmente me visto nela, enquanto acontecia. De noites sem dormir. De receber visitas minhas. De contas a pagar, de levar cagaço de chefe, de esquecer das coisas, de não ter nada para comer de madrugada, de reciclar cueca porque, de repente, sujou tudo! A vida normal. Aquela mesmo que quando a gente é moleque fica observando admirado nos outros, quase que contando os dias para entrar naquele barco que, de longe, promete ser um daqueles cruzeiros adolescentes que vão até Cayman com um monte de mulher louca pelada, bebida e droga liberadas, mas, quando se entra, está mais pra pacote de reveillon numa balsa em Copacabana com o Roberto Carlos: os fogos até que podem dar uma variada, mas no fundo você sabe que todo ano vai ser aquela mesma merda.

Emendando um cigarro atrás do outro eu me despedi do cara, e fiquei ali, paradão, no meio da rua, quebrando a cabeça com isso! São sete anos! SETE ANOS de contas a pagar, de falta de grana, de empreguinhos de merda, de planos que não dão certo, de distância, de sono, de viagens-relâmpago à Natal para matar as saudades, de estudar de madrugada, de cheque especial do cartão de crédito comendo o seu rabo, da mãe pedindo emprestado dinheiro que nunca vai pagar, de beber sozinho em casa, de se fuder por causa de mulher, de viajar sozinho, de conhecer gente, de fazer festa em casa com todo mundo bebendo e rindo, de dormir no tapete da porta porque a porra da chave parece que se esconde quando eu bebo além da conta.

Sete anos de gestação de um atropal que se amamenta do tédio. Acordar cedo para trabalhar em uma repartição idiota qualquer, ir almoçar cedo no PF vagabundo da vez na esperança de achar comida, correr atrás do ônibus e chegar cedo à Faculdade. No fim da noite, um bar com os amigos e voltar cedo, porque amanhã começa tudo de novo. Conhecer alguém na sexta-feira, insinuar uma transa no sábado e receber a famosa ligação só no domingo à noite: “tá cedo, ainda”. Rotina é isso mesmo: buscar sempre o “cedo” mas acabar se acostumando com o “tarde”. O dormir tarde, o acordar tarde, o chegar tarde, o “tarde demais, meu bem, estou com outro”.

E rotina é um troço que não tem preconceito de cor, classe ou tamanho de cabeça. Em Natal, Salvador ou Belo Horizonte, mudam as ruas, mudam as mulheres, muda o seu cabelo, suas roupas, seus gostos, seus amigos próximos, mas permanece aquela desgraça de vida diária que, quanto mais lhe prende, mais desperta as saudades de alguma coisa que nunca se teve. Uma vontade louca de quebrar a porra toda, jogar tudo pra cima mesmo e correr nú até o aeroporto, pegar um avião e se mandar pra Somália. De enfiar a mão na cara do chefe, de mandar aquele aluno marxista perturbador enfiar o Capital (que ele não leu) no rabo, de mandar uma real naquela patricinha cabeça-de-vento que insiste em olhar todo mundo de cima e dizer que já já ela vai ficar velha, feia e pelancuda, de jogar na cara daquela cambada de puxa-saco que a todo momento tenta te passar a perna que você tá cagando pra essa vidinha quantificável que eles medem pelo número de amigos no facebook ou publicações no lattes.

E pensando nisso tudo eu fiquei me perguntando o porquê dessa descoberta tão tardia. Tá certo que eu não sou a pessoa mais esperta do mundo, mas eu consigo colocar uma perna por vez dentro do jeans todas as manhãs – e isso é mais do que muita gente pode desejar para si. Então, por que? Como?

Quando a moça do caixa me estende as mãos abertas e pergunta, com aquele sotaque esquisito,qual vai ser: o azul ou o vermelho (é tudo R$ 4,50, mesmo), eu me jogo na metáfora e, de Marlboro Red, caio na real imaginando que o fato de sempre ter dividido apartamento com alguém meio que me alienou para o aspecto mais importante disso tudo. A consciência do seu lugar, no seu momento. Saber o que você está vivendo enquanto vive. Sabe aquele povo que parece que nasceu a passeio? Pois é, é justamente o oposto disso. É tentar enxergar, se não um propósito, ao menos as razões daquele prazo perdido, do artigo que saiu uma bosta, do relacionamento que não deu certo, do quebra-pau no samba do sábado, do dinheiro que se vai, dos quilos que chegam, da dor que se esconde e do sorriso que se mostra. É buscar compreender antes, para não ter de aceitar depois.

É complicado (e esquisito), mas foi essa necessidade que me levou a decidir procurar um apartamento só para mim, agora, em Belo Horizonte. A despeito do preço, da falta de fiador, da dificuldade do caralho em achar algo bacana. É essa busca pela descoberta, que revela o medo (não tão) infantil de “passar batido pela vida”, a fonte da súbita decisão em achar o meu canto; o meu lugar: só meu e pronto.

Isso e o quartinho de empregada em que estou morando. Porque tá foda, o negócio… 😀

Anúncios

8 Respostas to “Catarse”

  1. Thyago Says:

    Hahaha, fazendo por onde merecer ae o título de reclamão-mor! Brigado pelo post cara, mas eu vou ter que mandar uma censura nessa coisa, que violência! =]

  2. Flávia Ferrari Says:

    Caramba..
    Foda!
    Extasiei..
    Sem palavras no momento…

    Só uma dica: JP, Faça um blog!

    Beijos

  3. Pablo Fernandes Says:

    meu amigo, tomei um susto aqui lendo pensando que era um post de Thyago. Realmente pensei que ele tivesse ido morar contigo em belo horizonte e só na hora que thyago fez o comentário vi que foi tu quem escreveu.

    Você está passando por um momento difícil que é o mestrado. Não somente o mestrado, mas o mestrado + emprego que não gosta + longe da família. Espero que você aguente mais um pouco, e depois se for jogar tudo pra cima por um tempo, que seja depois do mestrado. Nesses momentos difíceis, tudo mais fica difícil também. Eu sei que você é um cara que sabe experimentar as coisas, viver coisas novas e cedo ou tarde você vai encontrar mais sentido para essa rotina toda. Um objetivo maior no final dessa correria da rotina vai te dar força para continuar. Um gordo não emagrece simplesmente porque é saudável, ele emagrece porque quer pegar aquela mina X e enquanto não emagrece MUITO, vai no meio do caminho levando alguns elogios do tipo “como você está mais magro”, ou “como você está mais bonito” e isso pra ele já VALEU.

    Ache seu objetivo maior e viva a rotina não como um sacrifício que não vai levar a lugar algum. Leve como um jogo prazeroso e cheio de desafios só pra virar lich king man.

  4. Joao Paulo Says:

    Agradeço à preocupação, Pablito, mas não tem nada disso não. Não se trata de estar difícil – já esteve muito mais – mas só do tomar ciência da realidade, da vida atual mesmo.

    A vontade de jogar tudo pra cima vai ser sempre uma constante nessa vida. Se eu tivesse ovo, já teria feito! Mas…

  5. Morais Says:

    Brother Baia, não tenho wis nem xp suficiente pra discutir sobre as agruras da vida com um cara com o seu background. O cotidiano, mesmo que bom e tranquilo (como o meu), vai consumindo a razão e nutre um desejo rock’n’roll de aproveitar a vida que acontece enquanto a gente se prende em hábitos enfadonhos e auto-destrutivos como trabalhar ou planejar – o acaso sempre chega junto e esculhamba um ou o outro. Já perdi muito tempo, só, pensando. Faz bem ao espírito e deixa a cabeça preparada para fatal conclusão de que a vida passa muito rápido. Porém, eu acredito que enquanto vc não encontra a sua aninha, vc é a melhor companhia pra esses momentos de reflexão profunda que não levam a lugar algum. Fernando Pessoa (pelo menos eu acho que foi ele) disse: A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Vou abrir uma garrafa de vinho do porto e, debruçado na minha janela olhando as luzes de Nova Parnamirim, vou oferecer um brinde em sua homenagem. Jogue Duro !

    • Morais Says:

      a parte em itálico deveria parar depois de “… do isolamento.”

      PS- Vinho do porto antes de dormir é como todas as noites deveriam começar.

  6. Driele Says:

    O melhor é que eu consigo imaginar exatamente como o Baia falaria isso pessoalmente… todas as entonações e principalmente os vícios de “mas oh.. deixa eu te falar” que não foram escritos no texto!!! =P

    Belo post!!!

    JP, FAÇA UM BLOG [2]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: