Cinco segundos

Ele olhou por sobre ombros e a viu ao longe, linda, como sempre fora.

Lá estava ele mais uma vez numa batalha consigo mesmo. Cinco minutos dentro dos seus pensamentos tirariam qualquer um do conforto da sanidade, mas ele sabia os caminhos – ou os ignorava por completo; por que não importa em que lugar de um labirinto você está, se você não se importa em sair.

Abaixou os olhos, olhou o copo em sua frente. Sorriu.

Foi um sorriso aparentemente sem sentido, mas ele já perdera o foco, de novo. Já se deslumbrava com a complexidade das suas idéias, com a briga eterna entre todas as facetas que ele incorporou, cuja soma formava seu Eu. Cada faceta derivada de um subconjunto de suas amizades, pois há muito ele havia se entregado por completo para elas. Era sempre engraçado perceber como ele tentava convencer a si mesmo de que não valia a pena, de que acabaria se dando mal.

O sorriso diminuiu, mostrando a todos o sorriso leve e pensativo de um rosto nostálgico.

Imaginava como ele poderia ser, de todas as maneiras como todas as pessoas podem ser, por que não há limites para a vontade. E como seria mais fácil se ele pudesse simplesmente fazer, sem pensar. Problemas… problemas são o de menos. Problemas podem ser resolvidos, mas o estado catatônico no qual se encontrava era muito, muito pior. Conseguia convencer a si mesmo de que não precisava passar por nada, pois nada fazer gera nada fazer. Não havia parado pra pensar que isto também se aplica às coisas boas da vida.

Parou agora. E pensou.

Seu rosto fechou-se novamente, dando lugar a uma expressão de preocupação.

Ou será que não? Ou será que a pressão de um milhão de idéias sobre as suas o estavam convencendo de que ele estava errado? Só podia estar! O mundo não pára, e todos caminham, todos avançam, todos fazem as coisas que querem fazer – ou pelo menos ele convenceu-se disso, embora soubesse estar absurdamente errado. Será que estava? Só podia estar! Mais um outro pensamento errado! E se estes o são, quais mais também não serão? O que mais ele achava ser certo, mas é, de fato, errado?

E a tristeza lhe tomou a face. Agarrou seu copo e levou-lhe aos lábios.

Olhou pra ela de novo, e ela parecia ainda mais linda do que cinco segundos atrás.

Mas ela não existe. Não existe mais.

Ela é uma idéia na sua mente, assim como foram tantas outras que nunca chegaram a ser mais do que idéias.

Nobody move, nobody get hurt, certo?

So, I’ve got a great idea:

I’m gonna wait right here.

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Publicado em Pensamentos. 3 Comments »

3 Respostas to “Cinco segundos”

  1. Gabriel Galvão Says:

    Bonito. Escreva mais textos nesse estilo, cara!

  2. Driele Says:

    Chega uma hora em que todos querem ser um “solzinho” por pelo menos 15min =) inevitável!

  3. capitaodaareia Says:

    Curti, continue escrevendo textos assim


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