Liberdade para Principiantes

A minha única intenção é fazer você pensar sobre o seu lugar no mundo.

Hoje eu estava na fila do banco, minutos antes dele abrir. Estava extremamente interessado no meu ambiente e nas pessoas nele, enquanto lia em Crime e Castigo os relatos de um indivíduo que estava extremamente desinteressado nas mesmas coisas.

Sorri.

Estava de bermudão bege, tênis all-star bege e uma camisa social rosa dobrada acima dos cotovelos, livro aberto, quietinho na fila que ainda não andava. As demonstrações mais óbvias de comportamento eram uma universal aos homens, que não distingue cor ou classe social: a vontade de passar na frente do outro; o desejo de ser o primeiro, a despeito de a quem tal título de direito seja. E foi aí que entrou um homem de meia-idade, roupas sociais que o carimbam como um emergente classe-média, meio frasco de gel despreocupado em disfarçar-se entre fios de cabelo no mais clássico estilo “mafioso italiano de hollywood”. Não bastasse tal óbvia marcação, o seu desprezo pelas outras pessoas na fila e pela fila em si o entregava como ferro quente em boi. Firmou-se distante da fila, tanto quanto pôde, e lá permaneceu, na sua própria fila individual, mostrando-se obviamente desatento aos problemas dos pobres ou honestos, tais como organização e estruturas sociais. Ora, não fizeram pois os poderosos as estruturas sociais unicamente para que eles as burlassem, mostrando-se, então, acima das intragáveis criaturas que a elas aderem? Não fazia este homem, então, mais que sua obrigação social, por mais paradoxal que a colocação seja. Em resumo, ele não agia em nome de sua vontade própria. Ele agia, apenas, indiferente aos outros, às estruturas, à sociedade… e à reflexão em si. Quem sabe, soubesse ele que é isso que dele se espera, não se sentisse ele um uniforme, um mais-um, um igual-a-outros-diferentes e, assim, agisse como os outros? Eu nunca vou saber, e saber não me interessa. Pensar já me sacia.

“Uniforme”, pensei de novo. Havia falado visando a uniformidade, mas percebi de novo que esses tais trajam estes uniformes que supõem livrar-lhes dos uniformes. Lá estão seus subordinados usando macacões estampados com nomes de empresas, ou camisas brancas de botão o pólos com estampas similares. Eles, enquanto isso, lá estão com suas camisas de manga longa de botões ensacadas, calças jeans e sapatos. Eu sorri de novo diante do pensamento, e soltei um leve riso. A mulher à minha frente olhou em minha direção, mas creio que julgou que eu ria do livro, quando eu estava há minutos fixando os olhos na mesma frase, e viajando em pensamentos diversos. Não sei se devo ou não sentir vergonha disso, mas meu primeiro pensamento foi o quão ridículo é sentir-se chique e superior usando calças jeans. Talvez eu fosse mais respeitado se usasse calças jeans ao invés deste bermudão, mas eu gosto tanto dele. Eu não sou uma democracia. Seria correto de mim julgar um indivíduo por ser quem se espera que ele seja? Eu não creio que seria. As pessoas não fazem coisas, elas apenas gostam de falar coisas. Lutar pela individualidade em textos de redes sociais é o passo mais largo de grande parte das pessoas; buscá-la nunca entrará nas prioridades de grande parte dos que o dizem. Mas, o que seriam dos que alcançam suas marcas de individualidade se todos alcançassem uma? É preciso perceber que só existe um herói quanto existe um vilão e/ou um mal.

A fila começa a andar e eu fecho o livro, e fecho este capítulo na minha cabeça.

Por favor, leitor, não me julgue preconceituoso. Eu não julgaria ninguém baseado em estereótipos! Mas o indivíduo deve conhecer-se e aceitar sua gama de experiências insufladas em imagens, se não em ações e palavras. Assim como se olha uma pedra preta e determina-se que ela é uma pedra e é preta, eu fiz também minha rede de conjecturas, menos concretas que tais propriedades da pedra. Talvez este homem não exista; talvez seja uma junção de idéias e experiências aleatórias na minha cabeça. Eu estaria bastante feliz em destruir fio a fio a teia que acabei de tecer, mediante diálogo com este fulano. Nunca iria julgá-lo de acordo com a minha própria suposição de quem ele é.

A minha única intenção é fazer você pensar sobre o seu lugar no mundo.

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Uma resposta to “Liberdade para Principiantes”

  1. Clarissa Says:

    Arrasou… queria escrever assim.

    “Eu nunca vou saber, e saber não me interessa. Pensar já me sacia”. Quando a gente percebe isso, a vida fica mais simples. Paramos de explicar a realidade com teorias que acabam se tornando religião.

    Parabéns, Thyago.


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