Crônica de dois Casais

Em um desses cantos escuros da cidade, eles se encontraram. Uma redoma difusa de luz numa calçada qualquer, uma rua quase isolada, não fossem mosquitos, um ocasional carro em marcha quase fúnebre e as perspectivas que os rodeavam. Não ousaram ter seu rendez-vous embaixo da luz melancólica do poste, como se não quisessem nem que os mosquitos zumbizando a lâmpada os vissem. Não se escondiam por necessidade, não, não precisavam; apenas sentiam que deviam, no cerne de suas vãs aspirações sociais. Um medo gélido de serem vistos juntos, daqueles que sobem a espinha até a base da nuca e congelam os pensamentos. Ela pensou em acender um cigarro, mas suas mãos não obedeceram. Ele forçou um sorriso, e ela seguiu, como ele achou que ela faria. “Nada mudou”, pensou ele. E nada havia mudado.

Ela pintou esta cena em sua mente várias e várias vezes, cada nova vez por cima da anterior, sem preocupar-se em apagar ou corrigir coisa alguma. Talvez esperasse condensar todas as possibilidades numa mesma moldura – ora, como se fosse possível – mas sempre soube que seria como ela nunca havia imaginado, surpreendente. E o que a surpreendeu é que o encontro foi exatamente como sempre fora. Nunca vislumbrara tal resultado, pois achava que havia crescido tanto, se todo mundo acha que crescer é a solução pra tudo. Ela o olhou meio envergonhada, como se achasse que não devesse. Duas, três vezes, a terceira depois de responder um “oi” um tanto quanto pretensioso, justo na tênue linha entre o tímido e o desajeitado. E, como um bom parceiro de dança, ele segurou as mãos dos pensamentos dela, puxou-se para perto de si e a conduziu por entre um labirinto de palavras e idéias, das quais há tempos ela fingiu se desvencilhar, onde há tempos ela anseava por perder-se.

O perfume dela dava sinais de cansaço na luta contra o cheiro de urina vindo de algum lugar próximo, mas nada iria estragar a ocasião. Seus olhos dançavam pelo rosto dele, cada centímetro uma lembrança, cada lembrança uma nova porta, e ela não sabia mais voltar pelas portas por onde passou. Já sentia que ele a agarrava entre malícias e promessas não-ditas, mas não via motivos pra combater. Agora estava sozinha, não havia ninguém para impressionar, exceto ele. De qualquer coisa do cotidiano para memórias de dias há muito passados, ele achava-se astuto em desfazer cada uma das defesas que ela ergueu para dele proteger-se; mal sabia ele que ela o permitia. Entre amores temporários e algum sexo de fim-de-semana, ela mesmo rezava no canto de suas esperanças por alguém que segurasse sua mão, nadando por entre idéias de auto sabotagem, baixa auto estima, desesperança amorosa, forumulou sua receita para o desastre. E suspensa de corpo e alma naquela noite fria, desprezou seu segundo cigarro ainda pela metade em favor do beijo que ele a ofereceu, e não deixou perder sequer uma gota do veneno que escorria dos lábios dele. Quando os olhos dela abriram de novo, tinham outra cor, suas palavras outra intenção.

Quanto a nós, caro leitor, não devemos sentir pena, orgulho, medo, ou o que quer seja – não é o nosso papel. Sintam-se à vontade com o texto, mas vos suplico, deixem nossos personagens! Eu vos trago o relato, pois é isto que este que vos escreve costuma fazer, mas esqueçam-se nunca que os olhos filtram as histórias e a mente as decoram!

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2 Respostas to “Crônica de dois Casais”

  1. Breno Says:

    Reencontro amoroso na Ribeira?

  2. Rhobertta Says:

    Nunca pare de escrever aqui. Adoro seus textos! :]


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