Alguns Tantos Anos

“Se eu fosse dez anos mais novo, eu com certeza estaria com você nos meus olhos e coração”, ele disse com um sorriso sincero e despretensioso.

Ela sorriu de volta, um tanto quanto tímida, e esperançosa, daquelas esperanças que só valem por si mesmas. Ele notou e continuou.

“Mas você não iria me dar atenção. Assim como você não dá atenção àqueles garotos ali que estavam com você”, disse, apontando para um grupo de jovens conversando e rindo num gramado.

Ele começou a andar, lentamente, e ela apressou-se em seguí-lo, tentando parecer desinteressada, sem deixar cair os livros e o fichário.

Ele sabia o que ela via nele. Seus passos afirmavam um propósito maior, uma certeza. Exalava confiança a cada respiração, seus olhos procuravam verdades, buscavam interesses, ao invés de defeitos e inseguranças. Sua voz lenta e segura, ora, se não havia motivo para pressa ou temer coisa qualquer que fosse. Olhou de volta pra ela, que parecia tentar buscar palavras pra construir uma frase, qualquer frase.

“Eu sei o que você vê em mim”, prosseguiu. “Já vi outras mulheres pensando a mesma coisa. Querendo pular o tempo, evitar a experiência de ver um homem crescer, de viver da sua própria mente, buscando em outro um chão para pisar, uma idéia pronta para nutrir e chamar de sua. Ví pessoas mais velhas que você fazendo isso. Preferem viver de aparências; não importa quem é seu homem, simplesmente nunca deve demonstrar fraqueza, chorar, sentir, ou transparecer, ha!” e soltou uma curta e abrupta risada. “Não, não são pra mim.”

Ela pareceu desapontada, como se aquilo fosse direcionado pra ela. Mas as palavras dele lhe vieram à língua antes que ele pudesse notar tal reação.

“Mas é aí que entra a beleza da coisa: a sinceridade no agir elimina um peso enorme de se ser quem não se é – acredite, eu sei. E, se eu puder dar um só conselho, o faria em forma de pergunta: você vai seguir os meus conselhos ou vai ser quem você quer ser?”

Ela parecia confusa, e ele também o estava, mas já se acostumara com pensamentos embaralhados. Dê-lhes tempo, eles se combinam em anagramas de pensamento, tantas possibilidades, ele recusava-se a escolher uma só que fosse. Mais um outro sorriso e ele seguiu seu caminho, deixando-a com seus pensamentos e amigos.

E foi nesse mesmo dia, neste exato momento, que ele mesmo começou a ser quem ele queria ser.

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(D)efeito Borboleta

Lá está ele de novo, imerso em pensamentos. Estava sentado em algum bar qualquer, em meio à multidão, nadando por entre cardumes de idéias ainda desconexas, mas, em breve, conectadas. É uma imagem mental interessante, imaginá-lo procurando entre os arquivos de idéias quais eram as mais adeqüadas para formar sua mais nova opinião. Eu sempre imagino algo diferente quando o vejo desse jeito. Chega a ser engraçado vê-lo ali, parado entre tanta gente e pensando exatamente nelas. Já vi aos montes aqueles que fixam seus olhares nos alvos de suas análises sociais, mas ele não; ele parece juntar a quantidade de dados que considera suficiente e ausenta-se desta realidade. É uma sensação interessantíssima que ele sempre sentiu, mas nunca percebeu, justamente por estar tão concentrado nos seus cardumes. É como um mergulho no mar: desacelera o tempo, abafa os sons, revigora a mente.

Eu sei sobre o que ele está pensando. Ele não entende por que está aqui, neste lugar, com estas pessoas. Ele acha que vê dentro delas. O mais interessante é que ele sempre acha que está errado, e é por isso que ele fala abertamente sua opnião errada como se fosse certa: a fim de ser corrigido. Mas ele não aprende que não é correção o que ele recebe; é hostilidade. Mas tudo deu certo: geralmente só ouvimos a verdade de pessoas que se sentem agredidas e partem para uma transe de auto-defesa, cuspindo palavras como se suas bocas fossem rifles e suas línguas gatilhos. “O silêncio é feito com o som”, é uma frase que ele sempre carregou consigo, alegando não entender o que significava. Seria isso? O som daquelas pessoas, falando palavras soltas e sem repercussão, sem ambição ou objetivo, umas pras outras, só ecoava silêncio nos seus ouvidos. Eles não gostavam uns dos outros, estava óbvio; eles só tinham certas vontades em comum. Unidos por um desejo transitório, efêmero e, freqüentemente, reprovável por outras pessoas, eles se mantiveram em seu círculo, homens e mulheres em suas caricaturas de amizade.

Na verdade, ele sofre. Ele está tão cansado, coitado. Ele queria o verdadeiro, o absoluto, embora ele nunca queira ser compreendido. Ser compreendido é muito invasivo, alguém que domina seus rumos sem a responsabilidade de controlá-los, sem as culpas, só com o conhecimento – ou seja, com o poder. Não, ele só quer fazer a diferença, e ele conhece o caminho, mas lhe falta força de vontade. E, admito, a voz que lhe faz tomar atitudes é a minha, e eu ando calado. Muita coisa aconteceu, ele precisa desse tempo para pensar e refletir – ou eu preciso dessa desculpa, para que eu faça o mesmo. Seria nossa idade? Não… Não. Nós estamos tão cansados…

Um corte de cabelo, uma nova cor de parede, um novo texto, um novo grande amigo… é assim que ele se mantém motivado, é assim que ele se vê indo para frente. Mudando, inovando. Nada disso veio ultimamente. Desde que eu parei de lhe falar, ele é outra pessoa: tudo é arriscado, nada é espontâneo; tudo pode dar errado, precisa de um plano de fuga pra qualquer situação. Ele perdeu o brilho, ele perdeu a explosão, perdeu a vontade de ser… Eu lembro exatamente quando isso aconteceu; ele, provavelmente, não. É um estado perigoso: qualquer fracasso é potencializado pelos fracassos anteriores, numa progressão exponencial, até o dia que ele irá errar a quantidade de açúcar no seu capuccino e isso será motivo o suficiente para questionar todo o passado e por em risco todo o futuro.

Mas e o que eu estou fazendo aqui? Pela lógica que eu traço, o que lhe falta são as minhas palavras, o meu incentivo. Mas, como eu disse, ele tem pensado muito, e isso eu não posso evitar. Sua reflexão solitária expulsa a ação, expulsa a revolta – ele é, agora, um teórico. Mas, na verdade, ele sabe. Sabe que eu condeno que ele esteja aqui pensando sobre coisas quando poderia simplesmente agir. Carregar sua opinião no peito como insígnias, medalhas; moldar seu orgulho e suas opiniões em palavras, suas palavras em bandeira e brandí-la por entre as multidões. Mas ele não me escuta mais. Além disso, o homem precisa conhecer os baixos da vida, mesmo que somente para temê-los quando estiver no alto. Sim, deixemos que ele se sente ali, desprezado pelos seus próprios, pensando no porquê, em como voltar à superfície para respirar e retomar seu caminho sem ninguém que o reprima. As maiorias ignorantes tornam a ignorância lei, e a inteligência passa a ser ridicularizada. Deixemos que ele se sinta ridículo, ou que se ache inteligente. Deixemos que ele ache que é triste. Deixemos que, sozinho, ele perceba que “suas esperanças podem ser falsas mas que sua felicidade é real”.

A Burocrata e a Fashionista

(Este texto irá usar o tema “moda” para ilustrar alguns conceitos sociais modernos. Embora possa ser também compreendido de maneira literal, eu recomendo a abstração da idéia para um melhor entendimento)

Ela tentou me dizer o que vestir. Eu sorri, claro. Nos meus 27 anos de vida, nunca segui esses tipos de regras, embora tenha lido e ouvido a todas que me foram passadas atentamente. Cadarços laranjas, cabelos brancos, camisa riscada, all stars e tênis de skatistas… E o que era “Moda”, afinal? Por respeito à minha própria natureza, não vou recorrer a Wikipédia ou dicionários, mas sintam-se a vontade para fazê-lo. Então eu decidi minha concepção: os homens recusam a palavra moda como se não fizessem parte dela; algo parecido com o que fazemos com o amor. Eu sei bem como sou, e sei bem que eu costumo fugir desse mainstream, por natureza (ou será por hábito?). Percebi que esse comportamento é tendência, é padrão: os homens popularizaram o romantismo, cá estamos nós para destruí-lo e negá-lo, como se negassemos tê-lo feito; cá estivemos então destruindo a moda, novamente, negando nossas origens. Sim, pois até algumas poucas centenas de anos atrás eram os homens que ditavam e usavam as novidades da moda.

Esta moça em particular possui uma certo grau que lhe confere autoridade no assunto. Acreditem em mim, pois vou omitir as suas credenciais. Mas seu discusso categórico do que se pode e do que não se pode vestir me deixou… pensativo. Eu ouvi atentamente a todas as coisas que eu uso e são “proibidas”. Pensei na coincidência de outras pessoas que elogiaram as mesmas combinações e sorri de novo. Aquilo não se tratava mais de moda, era uma ferramenta de conformidade, de condicionamento; era uma farda social, com variações. Eu sempre vi a maneira de se vestir como uma expressão do indivíduo e sempre me vesti de maneira a comunicar quem eu sou e o que penso, enquanto tentava aparecer bem. Mas o que eu vi e ouvi neste dia foram as regras para uma coisa subjetiva, e mais: condicionada à sociedade. Ora, a moda é uma expressão do tempo, das ações, enfim, do ethos desta sociedade, e agora estava me sendo imposta como se fosse a própria formadora destes valores! Não é a moda quem define a sociedade; é a sociedade quem define a moda! Assim sendo, acho insensato forçar a moda sobre os próprios elementos que a constituiram.

E é aí que entra o clubinho da moda. Pessoas que entendem a moda como um conceito fixo e estagnado, com uma validade semestral, que aceitam a opinião de dois ou três não como tendências, mas como regras. Estes tais, em seus círculos decaídos em valores e interpretações pré-mastigadas, usam a moda como um regulador de seus membros, vestem sua farda e ridicularizam os demais. Muito comum em cidades interioranas – tal como esta onde vivo hoje – onde três ou quatro modelitos compõem toda a noite, e eles se identificam. E isto, por acaso, é moda? Sim, isto é moda! Pois eles são parte da sociedade, e a suas idéias fixas de um uniforme para identificar seus membros e excluir os demais refletem-se incandescentemente nos valores daquela sociedade! Existem duas maneiras de se lidar com a moda: dizer hoje o que será no amanhã ou dizer amanhã o que foi decidido para hoje. Tais grupos obviamente escolheram a segunda opção e não têm muita relevância no desenvolvimento da moda em si.

Uma pena que este clubinho seja tão poderoso em sua sociedade. Ele empobrece as personalidades, as trancafia em suas vestes. Não interessa o seu gosto, limite-se ao que eles não consideram ridículo. É uma pena. É realmente uma pena.

Envelhecendo

Li um artigo dia desses bastante interessante sobre “envelhecer”. Na verdade, foi a entrevista de um terapeuta sexual, mas a minha reflexão final foi sobre envelhecimento e relacionamentos. Parei pra pensar sobre como a maioria das pessoas tem escrito em pedra como a vida deve ser vivida, de acordo com a idade; ou, outras, sobre como se deve fugir do jeito que as pessoas acham que a vida deve ser vivida. Se possível, não tomem minhas palavras como escrituras em pedra, ou arriscamos cair na cilada que estamos tentando evitar.

É uma reflexão sobre referências de vida; sobre como, aos 40, dizemos que não estamos mais no auge, ou coisas do tipo. Nunca havia parado pra pensar sobre isso eu mesmo, ao invés de pensar que, quando chegarmos nos 40, estaremos vivendo uma nova fase, com novas propostas, novos desejos, novos desafios e bla-bla-bla. O que permanece é uma saudade dos tempos que não voltam mais, como se a vida durasse, na verdade, 10 ou 15 anos, começando ali pelos 20. Que existe vida aos 40, todos nós sabemos; mas eu falo sobre coisas que começam aos 40 (tomei os 40 anos de maneira arbitrária, por se tratar, a meu ver, de um divisor de águas entre duas fases da vida, o que é uma fase especial por si só).

Coloquei em perspectiva: seria um medo perpétuo do futuro e um saudosismo infinito de dias onde tudo ocorreu bem? Eu sempre apliquei esse tipo de raciocínio desesperado por “estabilidade” (necessidade essa oriunda do pós-guerra e não mais cabível aos dias de hoje; os jovens simplesmente herdaram o desespero) a empregos públicos via concursos – de maneira meio irresponsável, admito – mas nunca o apliquei a visões de vida e razões para se existir. Desde uns poucos dias, parece-me fazer sentido: eu passei do passado, cá estou no futuro – fui, então, bem sucedido em sobreviver e viver; mas e o futuro? Posso, quem sabe, me dar bem; posso, talvez, me dar mal. “Ah, que saudades dos meus 25 anos, quando eu era jovem e namorador (e tudo deu certo na vida, posto que estou aqui)”. Quem tem coragem de admitir que precisamos da incerteza pra continuar andando? Que a possibilidade de não se dar bem no futuro é o principal motor do indivíduo? Quem está pronto pra admitir que precisamos de problemas pra apreciar a paz?

E assim os dias passam.

Ah, e independente do título um tanto quanto “infeliz”, pra quem gostar de se aventurar no inglês, recomendo a leitura da entrevista clicando aqui.

O vídeo abaixo, produzido pela Box1824 e entitulado “All Work and All Play” (tradução livre interpretativa minha: Tudo é Trabalho e Tudo é Diversão) faz você pensar sobre estas e outras coisas. Pois eu, assim como o vídeo, venho apenas trazer minha visão e minha interpretação, e incentivo você a considerar estas idéias para criar a sua própria, quem sabe, aproveitando ou rejeitando as nossas =]

Fora de Sincronia

Estive pensando sobre a vida que eu gostaria de ter, e como alcançá-la. Eu confesso ter uma abordagem bastante metódica para tal fim: quebrar a jornada em períodos menores e de fácil acompanhamento, estabelecer objetivos palpáveis e progressivos e etc. Por influências atuais*, decidi que chamaria este processo de “sincronização”: existe um eu no futuro que é quem eu quero ser e está onde eu quero estar. No entanto, cada objetivo que eu demoro a atingir ou me distancio e fracasso completamente, é um passo a mais para que eu “dessincronize” com este eu-futuro, e acabe sendo outra pessoa – que eu ainda não faço idéia de quem seja.

Várias perguntas vêm à mente, e eu acho que deve ser normal. Pode ser que eu não queira realmente ser quem eu ache que queira ser; pode ser que seja melhor ser outra pessoa. Bom, mas é aí que mora a beleza do processo dinâmico e iterativo da sincronização: caso, em algum dos passos, eu queira rever quem é o eu-futuro, eu posso redesenhá-lo e re-escrever meus objetivos a partir dali. Eu sou bastante flexível com relação a isso. Matrix fez um ótimo trabalhando nos fazendo pensar sobre se o fato de sabermos do futuro iria mudar alguma coisa. “Neo: Como você sabia? Oráculo: O que vai mesmo fazer seus miolos queimarem é… você teria quebrado se eu não tivesse dito nada?“. A única coisa que eu sou absolutamente rígido é com relação ao “caminho”. Eu quero que o meu caminho seja pavimentado com ouro, e não uma luz no fim do túnel nem um pote de ouro no fim do arco-íris, como eu ouço freqüentemente pessoas falando. E seguindo a minha metodologia de “quebrar a jornada em pedaços menores”, que citei no início do texto, eu começo com a minha semana. “Sair, numa terça-feira? Você tá louco?” não existe pra mim, e é assim que eu quero que seja. Ter data e hora certas somente daqui a cinco dias pra me divertir não faz parte dos meus planos. E, por favor, não entendam que eu pretendo ir pra farra sete dias por semana; isso seria pedir demais, e acabaríamos perdendo de sentir a preciosidade da diversão; eu imagino como sendo o dilema do Vampiro e sua imortalidade, mas isso fica prum outro texto. Impossibilidades são impossibilidades; mas dispensar a diversão na segunda ou na terça simplesmente por que “é segunda” ou “é terça”, não.

É essa a pessoa que eu quero ser. Uma pessoa que trabalha no que gosta e que pode sair numa terça-feira a noite sem maiores problemas. Ah, se eu ganhasse uma moeda pra cada um que me diz “e quem não quer?” mas gaguejam na tréplica “e o que você está fazendo pra isso?”. Eu sou apenas um homem que viu e ouviu milhões de pessoas que planejaram e dessincronizaram de seus eus-futuros nos tropeços do cotidiano e tem medo, muito medo, de ter o mesmo fim. Eu mesmo me vejo amarrado a uns três ou quatro emaranhados do dia-a-dia, e cá estou a lutar para deles me desvencilhar e continuar meu trajeto. Por observação, eu diria que os impecilhos mais comuns ao caminho desejado são namoros, empregos e família.

Mas nós, humanos, temos uma característica fantástica: o conformismo. Ironicamente, a única coisa com que os seres humanos parecem nunca se conformar é com o fato de que somos conformistas. Com o passar do tempo, aquele trabalho que não é exatamente o que nós queríamos passa a ser “ok”; nós vamos coletando argumentos para falar sobre como aceitar esse trabalho era necessário para isso ou para aquilo outro. Uma coisa que geralmente auxília bastante no conformismo é um problema maior do que temos. É a base da negociação: oferece-se um valor acima do normal, a outra parte corta o valor para chegar mais abaixo e fecha-se próximo do valor normal, e todos estão felizes. É como ter um trabalho que não satisfaz, depois ser demitido e passar um ano desempregado lutando por um emprego, e achar um outro um pouco pior, mas que agora, depois do desespero, parece ótimo.

Então, vamos viver. Quem seremos no futuro, provavelmente será quem queremos ser – mesmo que na base do conformismo. Mas, se eu puder fazer uma sugestão, vamos cotinuar tentando ser quem achamos que devemos ser 😉

Liberdade para Principiantes

A minha única intenção é fazer você pensar sobre o seu lugar no mundo.

Hoje eu estava na fila do banco, minutos antes dele abrir. Estava extremamente interessado no meu ambiente e nas pessoas nele, enquanto lia em Crime e Castigo os relatos de um indivíduo que estava extremamente desinteressado nas mesmas coisas.

Sorri.

Estava de bermudão bege, tênis all-star bege e uma camisa social rosa dobrada acima dos cotovelos, livro aberto, quietinho na fila que ainda não andava. As demonstrações mais óbvias de comportamento eram uma universal aos homens, que não distingue cor ou classe social: a vontade de passar na frente do outro; o desejo de ser o primeiro, a despeito de a quem tal título de direito seja. E foi aí que entrou um homem de meia-idade, roupas sociais que o carimbam como um emergente classe-média, meio frasco de gel despreocupado em disfarçar-se entre fios de cabelo no mais clássico estilo “mafioso italiano de hollywood”. Não bastasse tal óbvia marcação, o seu desprezo pelas outras pessoas na fila e pela fila em si o entregava como ferro quente em boi. Firmou-se distante da fila, tanto quanto pôde, e lá permaneceu, na sua própria fila individual, mostrando-se obviamente desatento aos problemas dos pobres ou honestos, tais como organização e estruturas sociais. Ora, não fizeram pois os poderosos as estruturas sociais unicamente para que eles as burlassem, mostrando-se, então, acima das intragáveis criaturas que a elas aderem? Não fazia este homem, então, mais que sua obrigação social, por mais paradoxal que a colocação seja. Em resumo, ele não agia em nome de sua vontade própria. Ele agia, apenas, indiferente aos outros, às estruturas, à sociedade… e à reflexão em si. Quem sabe, soubesse ele que é isso que dele se espera, não se sentisse ele um uniforme, um mais-um, um igual-a-outros-diferentes e, assim, agisse como os outros? Eu nunca vou saber, e saber não me interessa. Pensar já me sacia.

“Uniforme”, pensei de novo. Havia falado visando a uniformidade, mas percebi de novo que esses tais trajam estes uniformes que supõem livrar-lhes dos uniformes. Lá estão seus subordinados usando macacões estampados com nomes de empresas, ou camisas brancas de botão o pólos com estampas similares. Eles, enquanto isso, lá estão com suas camisas de manga longa de botões ensacadas, calças jeans e sapatos. Eu sorri de novo diante do pensamento, e soltei um leve riso. A mulher à minha frente olhou em minha direção, mas creio que julgou que eu ria do livro, quando eu estava há minutos fixando os olhos na mesma frase, e viajando em pensamentos diversos. Não sei se devo ou não sentir vergonha disso, mas meu primeiro pensamento foi o quão ridículo é sentir-se chique e superior usando calças jeans. Talvez eu fosse mais respeitado se usasse calças jeans ao invés deste bermudão, mas eu gosto tanto dele. Eu não sou uma democracia. Seria correto de mim julgar um indivíduo por ser quem se espera que ele seja? Eu não creio que seria. As pessoas não fazem coisas, elas apenas gostam de falar coisas. Lutar pela individualidade em textos de redes sociais é o passo mais largo de grande parte das pessoas; buscá-la nunca entrará nas prioridades de grande parte dos que o dizem. Mas, o que seriam dos que alcançam suas marcas de individualidade se todos alcançassem uma? É preciso perceber que só existe um herói quanto existe um vilão e/ou um mal.

A fila começa a andar e eu fecho o livro, e fecho este capítulo na minha cabeça.

Por favor, leitor, não me julgue preconceituoso. Eu não julgaria ninguém baseado em estereótipos! Mas o indivíduo deve conhecer-se e aceitar sua gama de experiências insufladas em imagens, se não em ações e palavras. Assim como se olha uma pedra preta e determina-se que ela é uma pedra e é preta, eu fiz também minha rede de conjecturas, menos concretas que tais propriedades da pedra. Talvez este homem não exista; talvez seja uma junção de idéias e experiências aleatórias na minha cabeça. Eu estaria bastante feliz em destruir fio a fio a teia que acabei de tecer, mediante diálogo com este fulano. Nunca iria julgá-lo de acordo com a minha própria suposição de quem ele é.

A minha única intenção é fazer você pensar sobre o seu lugar no mundo.

Oh, Alice…

O Verdadeiro Sorriso

“And love bit you in the throat while you were staring at the sea.”
(The Blood Brothers – Camouflage, Camouflage)

De quando em quando, no meio de alguma conversa, surge a afirmação de que “morar sozinho é solitário”. Hoje eu resolvi escrever um pouco sobre isso, por que, de fato, é uma coisa a ser analisada. Perceba: analisada. Eu, de maneira nenhuma, concordo com essa crença; mas não duvido que ela seja verdade para algumas pessoas. Mas então, como saber se eu irei me sentir solitário se for morar sozinho?

A minha resposta? Eu não faço a menor idéia. Mas eu creio que cada um saberia se iria sentir-se solitário (veja bem, você, ao morar sozinho, por definição, está sozinho; mas não solitário) ao morar sozinho. Parece ser uma coisa bem simples: você se sente solitário? Então, provavelmente, não irá mudar. Um indivíduo precisa conseguir viver bem consigo mesmo antes de pôr os pés fora do casulo e encarar a vida do outro lado.

Meus poucos momentos em casa são sempre ocupados, de um jeito ou de outro. Cozinhar, limpar a casa, comer, assistir algum filmes e séries, exercícios físicos, conversar na Internet, ler um livro, jogar World of Warcraft; isso ocupa as minhas noites. Se você não gosta de fazer essas coisas, então eu recomendo que arranje outras coisas para fazer. Realmente me parece absurdo decidir morar sozinho quando se acredita que será enfadonho e tedioso.

But, Alice, where’s your tongue?

É difícil. Não digo sobre “sentir-se bem sozinho”, isso é fácil; o difícil é convencer algumas pessoas disso. Claro que você não precisa convencer ninguém disso, mas, por vezes, é muito irritante. São várias as fontes da suspeita de seu tédio e da ojeriza ao seu estilo-de-vida, mas quase sempre vem daquelas pessoas que não conseguem viver sem um “amor”. Conhece? São várias, várias facetas: aquelas que acabam um namoro hoje e semana que vem já estão “enroladas”; aqueles que se apaixonam e acha que todo o planeta gostaria de estar no lugar deles; aquelas que vivem em função de encontrar um marido (mais sobre “A Sociedade Secreta das Housewives Wannabes*” em breve, não perca!); enfim, são vários os tipos, mas o que todas elas têm em comum é a crença de que é impossível você curtir a sua existência na Terra sem fazer parte de um casal. Você é um triste: deprimido, deprimindo e deprimente! Fingido, abandonado, que sorri na frente dos outros mas, na verdade, chora sozinho em casa todas as noites por não ter um alguém pra dividir os seus dias!

Ela voa com suas próprias asas!

And, Alice, where’s your hair?

Não, cara! Não! Resista à tentação de ofender abertamente estas pessoas, como já fiz eu por vezes. Pra começo de conversa, nem sempre elas estão erradas. Segundo, você não sabe o favor que está fazendo pra elas ao não reagir. É um jogo de paradoxos: o que atuar no assunto com mais afinco será o mais atingido por ele. “Ele” sendo o paradoxo. Bem resumidamente pra ninguém me chamar [muito] de maluco: se você entrar na defensiva e reagir, fica parecendo que você realmente tem algo a esconder, e age abertamente como a coisa que você nega ser; caso você não reaja, acredite quando digo que, em breve, você verá a pessoa que te chamou de triste por não estar em uma relação ficar triste por causa de uma relação. Prós e contras, certo? Os seus prós são os contras deles; e vice-versa!

Alice, where’s your teeth?

E não me venha falar que não se importa com o que “os outros” vão dizer, por favor. Você provavelmente vai. Eu já devo ter comentado sobre isso em outros posts, e não vou me repetir, mas grande parte das pessoas que falam isso não querem dizer isso. Mas dizem, só pra causar uma impressão de independência sobre as próprias pessoas cujas opiniões se afirma não se importar. Mas, sei lá, eu não conheço o mundo todo, não é? Vai que realmente existe gente que não sem importa com o que ninguém diz. Eu lembro daquele russo que descobriu um enigma de matemática e colecionava baratas…

Oh, Alice, where’s your lips?

Seja feliz, sinta-se feliz. Antes de sair de casa, analise como você gasta o seu tempo. Recebe muitos amigos? Perceba que você precisará preparar um ambiente pra recebê-los. Sai muito? Ah, meu velho, joga um colchão no chão e um copo d’água pra curar a ressaca, e você tá pronto! Nunca está sozinho em casa? Sei lá, considere morar com um ou mais amigos! São diferentes cenários, diferentes idéias; é só uma questão de analisar a própria vida e tomar uma decisão =;)

P.S.: Ah, e dinheiro, amigo. Não esqueça do dinheiro.

* And, Alice, where’s your man? ‘Housewives Wannabes’ vêm do inglês e, em tradução livre, seria ‘Pretendentes a esposas’, muito embora quem domine o idioma inglês provavelmente concorde que o termo em inglês passe uma idéia muito mais forte. Ou talvez só pra mim; sempre me vem à cabeça a imagem das mulheres do filme “Stepford Wives”;