(D)efeito Borboleta

Lá está ele de novo, imerso em pensamentos. Estava sentado em algum bar qualquer, em meio à multidão, nadando por entre cardumes de idéias ainda desconexas, mas, em breve, conectadas. É uma imagem mental interessante, imaginá-lo procurando entre os arquivos de idéias quais eram as mais adeqüadas para formar sua mais nova opinião. Eu sempre imagino algo diferente quando o vejo desse jeito. Chega a ser engraçado vê-lo ali, parado entre tanta gente e pensando exatamente nelas. Já vi aos montes aqueles que fixam seus olhares nos alvos de suas análises sociais, mas ele não; ele parece juntar a quantidade de dados que considera suficiente e ausenta-se desta realidade. É uma sensação interessantíssima que ele sempre sentiu, mas nunca percebeu, justamente por estar tão concentrado nos seus cardumes. É como um mergulho no mar: desacelera o tempo, abafa os sons, revigora a mente.

Eu sei sobre o que ele está pensando. Ele não entende por que está aqui, neste lugar, com estas pessoas. Ele acha que vê dentro delas. O mais interessante é que ele sempre acha que está errado, e é por isso que ele fala abertamente sua opnião errada como se fosse certa: a fim de ser corrigido. Mas ele não aprende que não é correção o que ele recebe; é hostilidade. Mas tudo deu certo: geralmente só ouvimos a verdade de pessoas que se sentem agredidas e partem para uma transe de auto-defesa, cuspindo palavras como se suas bocas fossem rifles e suas línguas gatilhos. “O silêncio é feito com o som”, é uma frase que ele sempre carregou consigo, alegando não entender o que significava. Seria isso? O som daquelas pessoas, falando palavras soltas e sem repercussão, sem ambição ou objetivo, umas pras outras, só ecoava silêncio nos seus ouvidos. Eles não gostavam uns dos outros, estava óbvio; eles só tinham certas vontades em comum. Unidos por um desejo transitório, efêmero e, freqüentemente, reprovável por outras pessoas, eles se mantiveram em seu círculo, homens e mulheres em suas caricaturas de amizade.

Na verdade, ele sofre. Ele está tão cansado, coitado. Ele queria o verdadeiro, o absoluto, embora ele nunca queira ser compreendido. Ser compreendido é muito invasivo, alguém que domina seus rumos sem a responsabilidade de controlá-los, sem as culpas, só com o conhecimento – ou seja, com o poder. Não, ele só quer fazer a diferença, e ele conhece o caminho, mas lhe falta força de vontade. E, admito, a voz que lhe faz tomar atitudes é a minha, e eu ando calado. Muita coisa aconteceu, ele precisa desse tempo para pensar e refletir – ou eu preciso dessa desculpa, para que eu faça o mesmo. Seria nossa idade? Não… Não. Nós estamos tão cansados…

Um corte de cabelo, uma nova cor de parede, um novo texto, um novo grande amigo… é assim que ele se mantém motivado, é assim que ele se vê indo para frente. Mudando, inovando. Nada disso veio ultimamente. Desde que eu parei de lhe falar, ele é outra pessoa: tudo é arriscado, nada é espontâneo; tudo pode dar errado, precisa de um plano de fuga pra qualquer situação. Ele perdeu o brilho, ele perdeu a explosão, perdeu a vontade de ser… Eu lembro exatamente quando isso aconteceu; ele, provavelmente, não. É um estado perigoso: qualquer fracasso é potencializado pelos fracassos anteriores, numa progressão exponencial, até o dia que ele irá errar a quantidade de açúcar no seu capuccino e isso será motivo o suficiente para questionar todo o passado e por em risco todo o futuro.

Mas e o que eu estou fazendo aqui? Pela lógica que eu traço, o que lhe falta são as minhas palavras, o meu incentivo. Mas, como eu disse, ele tem pensado muito, e isso eu não posso evitar. Sua reflexão solitária expulsa a ação, expulsa a revolta – ele é, agora, um teórico. Mas, na verdade, ele sabe. Sabe que eu condeno que ele esteja aqui pensando sobre coisas quando poderia simplesmente agir. Carregar sua opinião no peito como insígnias, medalhas; moldar seu orgulho e suas opiniões em palavras, suas palavras em bandeira e brandí-la por entre as multidões. Mas ele não me escuta mais. Além disso, o homem precisa conhecer os baixos da vida, mesmo que somente para temê-los quando estiver no alto. Sim, deixemos que ele se sente ali, desprezado pelos seus próprios, pensando no porquê, em como voltar à superfície para respirar e retomar seu caminho sem ninguém que o reprima. As maiorias ignorantes tornam a ignorância lei, e a inteligência passa a ser ridicularizada. Deixemos que ele se sinta ridículo, ou que se ache inteligente. Deixemos que ele ache que é triste. Deixemos que, sozinho, ele perceba que “suas esperanças podem ser falsas mas que sua felicidade é real”.

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O Anel

Se há uma coisa que tem muita simbologia na língua portuguesa é o Anel, neste texto, capitalizado. Capitalizado por dois motivos: um, respeito; dois, eu tô me acostumando a capitalizar os substantivos – mas esse vai ser o único, eu acho. Mas isso não é importante. Voltando. A simbologia mais intricada do Anel eu vou deixar pra cada um de vocês elaborar, mas eu gostaria de adentrar, se vocês me permitirem, em uma simbologia que me vem à mente, baseada primariamente no Senhor dos Anéis. Eu vou evitar elaborar muito, por que eu quero jogar, mas qual é, na opinião de vocês, a grande lição do Senhor dos Anéis? A meu ver, existe uma metáfora relativamente clara sobre a cegueira das pessoas diante de algo que elas consideram absurdamente valioso. Aquilo vira a sua vida, e sua vida anterior não existe mais; você acha que todos têm inveja de você, mas como não acharia? Aquilo é uma coisa única, não existe outro no mundo! E é seu. E é a melhor coisa que existe. Alguém está sempre com inveja ou tentando tomar de você. Por mais clássico que seja essa missconception, ela ainda é ridiculamente comum em nossos dias. É como tomar sol na praia antes das 15hs, ou cerveja: todo mundo sabe que faz mal, mas ninguém tá nem aí.

Eu tenho muito medo de falar “eu nunca faria isso”. Nesse caso em particular especialmente, posto que o indivíduo está sob efeito de uma cegueira, logo, ele não consegue mais ver a realidade. Eu imagino a mudança, sempre gradual, de um estado consciente pra o estado supracitado. Tive a oportunidade de analisar alguns casos, mas nunca prestei atenção no degradê. Tal estudo é uma arte, caros amigos, e aqueles que abandonam o self pra abraçar o whole são nossos heróis!

Em 7 dias estarei a 10 mil metros de altura a caminho do Sol e do Meu Apartamento. A viagem foi ótima – bom, ainda tenho mais uma viagenzinha nesse Sábado, vou conhecer Passau, na Bavaria – mas sempre chega a hora de voltar, certo? Na verdade, eu ando pensando muito que todo o dinheiro que eu não investi no Apartamento devido às economias desta viagem, vou poder usar de agora em diante. Sabe como é, somos seres humanos, e precisamos de um ambiente agradável pra viver, para nós mesmos, segundo para os amigos e terceiro para aqueles que, mais cedo ou mais tarde, revelar-se-ão não-tão-amigos-assim.

A pergunta que fica é exatamente a que fica para fins de namoro: você é capaz de abstrair todos os problemas atuais e pensar que o que importa é que, no passado, foi muito agradável? Ou você é daquelas pessoas que, diante da raiva atual, diz que vocês nunca foram amigos, que a mãe do invidíduo conhece intimamente todos os jogadores de futebol de algum time qualquer, sai por aí falando pra Deus e o Mundo (oops!) que seu ex-amigo faz xixi na cama, entre outras coisas de maturidade indubitável? Eu posso falar por mim: ex-namoradas ou ex-amigos, o que me importa são as lembranças – até as fotos, vá lá! =]

P.S.: Desculpem a mistura de assuntos, é que eu passei dois dias pra escrever esse texto. Tantas interrupções, tantas interrupções!