A Benção da Ignorância

Eu estava pensando sobre o que comprar primeiro. Eu pensei tanto que dava pra ver a fumaça de longe. Foi quando meu pai apareceu. É uma coisa interessante: meu pai gosta de fazer inovações na casa. Tipo acordar com alguém batendo um martelo às 7 da manhã e, quando você se levanta com aquele bom humor matutino tradicional, o rapaz está mudando a planta de lugar, tipo tirando da varanda e pendurando num vazo na sala. Ou um espelho novo. Ou resolveu trocar o centro da sala. O problema é que a minha mãe passa muito tempo em casa, e faz essas coisas ela mesmo. Então, o que o meu pai faz?

Faz essas coisas no meu apartamento, claro.

Às vezes, ajuda. Exceto aquela vez em que ele quebrou o cano da pia (que, tecnicamente falando, embora eu não seja técnico no assunto, ainda está quebrado) ou quando ele resolve ignorar todos os fios do meu sensibilíssimo roteador de internet. Ele chegou ontem no meu escritório me dizendo que tinha ido lá em casa fazer o orçamento do meu condicionador de ar novo (que de novo não tem nada; ele ocupa uma parte da minha varanda, desligado há um ano). Basicamente eu vou precisar de um pedreiro pra furar metade do apartamento pra que o exaustor vá do meu quarto até a área de serviço, de um encanador pra encaixar a saída de água na tubulação do banheiro, ou coisa assim, e de um montador de condicionadores de ar. Meu papai querido me entregou um orçamento. Eu agradeci, respirei, sorri, e voltei ao trabalho.

Essa semana, no entanto, eu aparentemente comprarei uma cama nova. Eu ainda não sei o que farei com a minha antiga. Alguém compra essas coisas? Eu nem sei ainda o que vou fazer com os já mencionados fios e roteador; eles estão, ahm… “repousando” no chão, ao lado da cama. Eu acho que vou precisar comprar uma bancada pra encaixar naquele lado. E assim, começo eu a fazer o que eu não queria: mobiliar a casa pelo meu quarto.

Mas isso tudo são detalhes.

Hoje eu acordei e o sol ainda não tinha acordado, fui ler meu novíssimo livro, “O Império do Efêmero“, na rede, pra aproveitar o friozinho que o horário propicia a esse pântano onde eu moro. Fiquei viciado em ler; é um fenômeno interessante que me acomete a cada 3 anos, mais ou menos. O livro fala sobre um assunto bastante polêmico: moda. Adoro assuntos polêmicos. Claro, metade dos meus amigos e a totalidade dos meus conhecidos já colocaram minha heterosexualidade em questão, mas a gente aguenta esse tipo de coisa. Na época de Raul Seixas era careta alguém falar de amor, mas ele conseguiu chegar numa percepção boa das coisas, talvez eu consiga também. Mas o fato é que, enquanto eu lia o livro, eu cheguei a uma das minhas conclusões mais óbvias de 2011, que elucida o meu problema em querer comprar um tênis e/ou sapato há uns três meses e não ter comprado nada ainda. E, desde hoje cedo, eu gosto de pensar que ele soluciona também um pedacinho da simplicidade da complexidade do pensamento feminino no quesito “compras”.

Basicamente, eu só não consigo me decidir em um calçado e realizar de vez essa compra por que eu preciso comprar um só. Se eu pudesse comprar todos, não me restaria a minha própria tormenta com relação à minha decisão e as assustadores previsões das possíveis conseqüências em fazê-la, certo? No entanto, comprar todos me deixaria com uma consciência tremendamente pesada pelo altíssimo valor gasto em calçados. Provavelmente, a minha visão até pouco tempo preconceituosa sobre a moda e suas nuâncias me leva a subjulgar o valor de um calçado, o que me leva a sentir que gastei dinheiro com besteira. Então, se eu entender a moda, aceitar a moda como um fator necessário para atender os desejos de expressão e individualização da sociedade moderna e bla-bla-bla, estarei eu mais propenso a comprar os meus calçados sem peso na consciência?

Eu acredito que sim. O que está me deixando com muito, muito medo de continuar lendo esse livro…