A Burocrata e a Fashionista

(Este texto irá usar o tema “moda” para ilustrar alguns conceitos sociais modernos. Embora possa ser também compreendido de maneira literal, eu recomendo a abstração da idéia para um melhor entendimento)

Ela tentou me dizer o que vestir. Eu sorri, claro. Nos meus 27 anos de vida, nunca segui esses tipos de regras, embora tenha lido e ouvido a todas que me foram passadas atentamente. Cadarços laranjas, cabelos brancos, camisa riscada, all stars e tênis de skatistas… E o que era “Moda”, afinal? Por respeito à minha própria natureza, não vou recorrer a Wikipédia ou dicionários, mas sintam-se a vontade para fazê-lo. Então eu decidi minha concepção: os homens recusam a palavra moda como se não fizessem parte dela; algo parecido com o que fazemos com o amor. Eu sei bem como sou, e sei bem que eu costumo fugir desse mainstream, por natureza (ou será por hábito?). Percebi que esse comportamento é tendência, é padrão: os homens popularizaram o romantismo, cá estamos nós para destruí-lo e negá-lo, como se negassemos tê-lo feito; cá estivemos então destruindo a moda, novamente, negando nossas origens. Sim, pois até algumas poucas centenas de anos atrás eram os homens que ditavam e usavam as novidades da moda.

Esta moça em particular possui uma certo grau que lhe confere autoridade no assunto. Acreditem em mim, pois vou omitir as suas credenciais. Mas seu discusso categórico do que se pode e do que não se pode vestir me deixou… pensativo. Eu ouvi atentamente a todas as coisas que eu uso e são “proibidas”. Pensei na coincidência de outras pessoas que elogiaram as mesmas combinações e sorri de novo. Aquilo não se tratava mais de moda, era uma ferramenta de conformidade, de condicionamento; era uma farda social, com variações. Eu sempre vi a maneira de se vestir como uma expressão do indivíduo e sempre me vesti de maneira a comunicar quem eu sou e o que penso, enquanto tentava aparecer bem. Mas o que eu vi e ouvi neste dia foram as regras para uma coisa subjetiva, e mais: condicionada à sociedade. Ora, a moda é uma expressão do tempo, das ações, enfim, do ethos desta sociedade, e agora estava me sendo imposta como se fosse a própria formadora destes valores! Não é a moda quem define a sociedade; é a sociedade quem define a moda! Assim sendo, acho insensato forçar a moda sobre os próprios elementos que a constituiram.

E é aí que entra o clubinho da moda. Pessoas que entendem a moda como um conceito fixo e estagnado, com uma validade semestral, que aceitam a opinião de dois ou três não como tendências, mas como regras. Estes tais, em seus círculos decaídos em valores e interpretações pré-mastigadas, usam a moda como um regulador de seus membros, vestem sua farda e ridicularizam os demais. Muito comum em cidades interioranas – tal como esta onde vivo hoje – onde três ou quatro modelitos compõem toda a noite, e eles se identificam. E isto, por acaso, é moda? Sim, isto é moda! Pois eles são parte da sociedade, e a suas idéias fixas de um uniforme para identificar seus membros e excluir os demais refletem-se incandescentemente nos valores daquela sociedade! Existem duas maneiras de se lidar com a moda: dizer hoje o que será no amanhã ou dizer amanhã o que foi decidido para hoje. Tais grupos obviamente escolheram a segunda opção e não têm muita relevância no desenvolvimento da moda em si.

Uma pena que este clubinho seja tão poderoso em sua sociedade. Ele empobrece as personalidades, as trancafia em suas vestes. Não interessa o seu gosto, limite-se ao que eles não consideram ridículo. É uma pena. É realmente uma pena.