Alguns Tantos Anos

“Se eu fosse dez anos mais novo, eu com certeza estaria com você nos meus olhos e coração”, ele disse com um sorriso sincero e despretensioso.

Ela sorriu de volta, um tanto quanto tímida, e esperançosa, daquelas esperanças que só valem por si mesmas. Ele notou e continuou.

“Mas você não iria me dar atenção. Assim como você não dá atenção àqueles garotos ali que estavam com você”, disse, apontando para um grupo de jovens conversando e rindo num gramado.

Ele começou a andar, lentamente, e ela apressou-se em seguí-lo, tentando parecer desinteressada, sem deixar cair os livros e o fichário.

Ele sabia o que ela via nele. Seus passos afirmavam um propósito maior, uma certeza. Exalava confiança a cada respiração, seus olhos procuravam verdades, buscavam interesses, ao invés de defeitos e inseguranças. Sua voz lenta e segura, ora, se não havia motivo para pressa ou temer coisa qualquer que fosse. Olhou de volta pra ela, que parecia tentar buscar palavras pra construir uma frase, qualquer frase.

“Eu sei o que você vê em mim”, prosseguiu. “Já vi outras mulheres pensando a mesma coisa. Querendo pular o tempo, evitar a experiência de ver um homem crescer, de viver da sua própria mente, buscando em outro um chão para pisar, uma idéia pronta para nutrir e chamar de sua. Ví pessoas mais velhas que você fazendo isso. Preferem viver de aparências; não importa quem é seu homem, simplesmente nunca deve demonstrar fraqueza, chorar, sentir, ou transparecer, ha!” e soltou uma curta e abrupta risada. “Não, não são pra mim.”

Ela pareceu desapontada, como se aquilo fosse direcionado pra ela. Mas as palavras dele lhe vieram à língua antes que ele pudesse notar tal reação.

“Mas é aí que entra a beleza da coisa: a sinceridade no agir elimina um peso enorme de se ser quem não se é – acredite, eu sei. E, se eu puder dar um só conselho, o faria em forma de pergunta: você vai seguir os meus conselhos ou vai ser quem você quer ser?”

Ela parecia confusa, e ele também o estava, mas já se acostumara com pensamentos embaralhados. Dê-lhes tempo, eles se combinam em anagramas de pensamento, tantas possibilidades, ele recusava-se a escolher uma só que fosse. Mais um outro sorriso e ele seguiu seu caminho, deixando-a com seus pensamentos e amigos.

E foi nesse mesmo dia, neste exato momento, que ele mesmo começou a ser quem ele queria ser.

Envelhecendo

Li um artigo dia desses bastante interessante sobre “envelhecer”. Na verdade, foi a entrevista de um terapeuta sexual, mas a minha reflexão final foi sobre envelhecimento e relacionamentos. Parei pra pensar sobre como a maioria das pessoas tem escrito em pedra como a vida deve ser vivida, de acordo com a idade; ou, outras, sobre como se deve fugir do jeito que as pessoas acham que a vida deve ser vivida. Se possível, não tomem minhas palavras como escrituras em pedra, ou arriscamos cair na cilada que estamos tentando evitar.

É uma reflexão sobre referências de vida; sobre como, aos 40, dizemos que não estamos mais no auge, ou coisas do tipo. Nunca havia parado pra pensar sobre isso eu mesmo, ao invés de pensar que, quando chegarmos nos 40, estaremos vivendo uma nova fase, com novas propostas, novos desejos, novos desafios e bla-bla-bla. O que permanece é uma saudade dos tempos que não voltam mais, como se a vida durasse, na verdade, 10 ou 15 anos, começando ali pelos 20. Que existe vida aos 40, todos nós sabemos; mas eu falo sobre coisas que começam aos 40 (tomei os 40 anos de maneira arbitrária, por se tratar, a meu ver, de um divisor de águas entre duas fases da vida, o que é uma fase especial por si só).

Coloquei em perspectiva: seria um medo perpétuo do futuro e um saudosismo infinito de dias onde tudo ocorreu bem? Eu sempre apliquei esse tipo de raciocínio desesperado por “estabilidade” (necessidade essa oriunda do pós-guerra e não mais cabível aos dias de hoje; os jovens simplesmente herdaram o desespero) a empregos públicos via concursos – de maneira meio irresponsável, admito – mas nunca o apliquei a visões de vida e razões para se existir. Desde uns poucos dias, parece-me fazer sentido: eu passei do passado, cá estou no futuro – fui, então, bem sucedido em sobreviver e viver; mas e o futuro? Posso, quem sabe, me dar bem; posso, talvez, me dar mal. “Ah, que saudades dos meus 25 anos, quando eu era jovem e namorador (e tudo deu certo na vida, posto que estou aqui)”. Quem tem coragem de admitir que precisamos da incerteza pra continuar andando? Que a possibilidade de não se dar bem no futuro é o principal motor do indivíduo? Quem está pronto pra admitir que precisamos de problemas pra apreciar a paz?

E assim os dias passam.

Ah, e independente do título um tanto quanto “infeliz”, pra quem gostar de se aventurar no inglês, recomendo a leitura da entrevista clicando aqui.

O vídeo abaixo, produzido pela Box1824 e entitulado “All Work and All Play” (tradução livre interpretativa minha: Tudo é Trabalho e Tudo é Diversão) faz você pensar sobre estas e outras coisas. Pois eu, assim como o vídeo, venho apenas trazer minha visão e minha interpretação, e incentivo você a considerar estas idéias para criar a sua própria, quem sabe, aproveitando ou rejeitando as nossas =]